terça-feira, 10 de setembro de 2013

Empatia materna: por onde você anda?


Relaxa o ombro, se estica na cadeira, o post é longo...

Eu carrego algumas "crenças" (leia-se: saúde baseada em evidências científicas) maternísticas-bebísticas  que costumo defender com muita ênfase, como parto humanizado, parto normal em detrimento de cesárea eletiva, amamentação, alimentação saudável na infância (e ainda tenho esperança de adequar a minha, rs), bofete nos 'nana-nenê' da vida, enfim, costumo gastar grande parte do latim (que não falo) para justificar, explicar, desenhar, enfim, seja o que for, para que minha mensagem chegue até o alvo. Mas sempre me preocupei em fazê-lo de forma com que não ofendesse ou mesmo minimizasse a opinião de outrem. O que nem sempre dá certo, confesso. A carapuça às vezes serve em alguém, assim como me serve muitas vezes em tantas outras situações desse mundão de meu Deus. 

Tenhamos como exemplo, minha defesa pelo parto normal: não concordo com um nascimento agendado, com uma cesárea que é realizada fora do contexto do trabalho de parto ou que não tenha real indicação para ser realizada (especialmente esse status). Entretanto, não julgo quem faz essa escolha. Prefiro acreditar que a mulher que ainda pensa dessa forma não possui informação suficiente, desconhece as evidências científicas e faz uma opção (ou acredita que está optando) porque foi engolida pelo sistema. Ou, simplesmente não tem interesse em saber nada sobre. Ponto. Ponto final. Cada um cuida do seu terreiro. 

Participo de muito grupos/comunidades de rede social sobre alimentação consciente, parto humanizado, aleitamento materno, práticas pedagógicas, psicologia infantil, maternagem (grupos que se multiplicam e agregam novos membros numa velocidade avassaladora), enfim, áreas que me interessam, sempre buscando aprender um pouco mais, mas cada vez contribuindo menos, tendo em vista as diversas situações que tenho presenciado e que também já vivenciei no passado. A verdade é que a mensagem escrita nunca expressa os nossos verdadeiros sentimentos, a entonação de nossa voz, as ênfases que só a o discurso oral é capaz de contemplar. Assim, a real mensagem muitas vezes se perde ou é distorcida. Administrar isso é muito exaustivo. Gosto do olho no olho, de gesticular com as mãos, de fazer caras e bocas. (então por que diabos fui ter um blog? hahaha). Contudo, independentemente se é verbal oral ou verbal escrita, a palavra é poderosa!

Onde estou querendo chegar? Tenho me incomodado com a postura de algumas mães/mulheres nesses espaços coletivos virtuais que 'frequento'. Particularmente, entendo que esses espaços são valiosos, uma vez que são constituídos como mecanismos de ajuda ou auto-ajuda, como forma de compartilhar experiências, promover identificações, disseminar informações, enfim discussões capazes de auxiliar tentantes, gestantes, simpatizantes, mamães, vovós, papais, enfim, ajudar pessoas a lidarem melhor com as dificuldades e incertezas do dia-a-dia, especialmente no que concerne a chegada de uma nova vida ao mundo e a forma de conduzir seu crescimento de maneira saudável e feliz. Na minha humilde concepção, gestação, parto e criação de filhos, fazem parte de um campo muito delicado, onde todo amparo e acolhimento é bem vindo.

Mas o que eu tenho visto com frequências são espaços que, ao invés de promoverem o acolhimento (especialmente de mulheres/mães), se tornam espaços de apedrejamento, de julgamento, e assim, terminam de minar o pouco de auto-confiança que essas pessoas possuem em suas próprias capacidades. Confesso que ver mães postando suas perguntas e implorando para não ser maltratadas pela qualidade de suas dúvidas tem me chocado. E por favor, que os moderadores desses grupos não me entendam mal, muitos deles se esforçam para administrar a 'casa', muitos acolhem as dúvidas dos membros e se esforçam para administrar os conflitos. 

O que vejo muitas vezes é um grande carnaval, onde algumas mães desfilam seus sucessos e pisoteiam o suposto fracasso de outras mães. E isso envolve a mãe que é 'menas' porque fez cesárea, a mãe que é 'menas' porque não quis ou não conseguiu amamentar seu bebê, a mãe que é 'menas' porque não sabe se pode dar suco de caixinha para o bebê, enfim, um festival de julgamentos sem ao menos conhecer a história de cada um. Penso no impacto que isso pode ter sobre essas mães, que buscam o apoio das demais nas redes sociais. Na verdade, embora viciadjenha no Face, sempre questionei seu potencial gerador de angústia, visto que, na rede social o pasto do vizinho é sempre mais verde. Dificilmente você lê alguém expressando: "putz, acabei de perder o emprego", "tudo dá errado na minha vida", "meu parto não foi tão perfeito quanto a foto/vídeo editado mostra", "tenho dificuldade em amamentar", entre outros. Em contrapartida, nos esbaldamos em fotos de viagens, festas, partos perfeitos, gente bonita (maquiada e super produzida), mamães amamentando com a pega perfeita. É a revista CARAS dos "simples mortais"! Poucos são os que vão para as redes anunciar suas derrotas, promover reflexões, e quando o fazem, muitas vezes são oprimidos. Tendemos a esconder a sujeira embaixo do tapete, fato! (isso não é uma crítica à rede social, mas que apliquemos o crivo do real, não o do ideal)

Acredito que muita riqueza pode ser gerada a partir desses grupos virtuais. São espaços onde pessoas se encorajam para tirar suas dúvidas e minimizar um pouco sua ansiedade. Contudo é absurdamente frequente, após uma pergunta supostamente "estapafúrdia", seguir-se uma sucessão de respostas/comentários carregados de julgamentos (dentre alguns válidos, realmente acolhedores e esclarecedores), chacotas, quando não, algumas pessoas/mães fazem questão de pisotear o suposto fracasso alheio, exibindo seu suposto sucesso: "Noooossa, o meu fulaninho tem a idade do seu e já pesa X+X quilos, o seu só pesa X?" (resposta a uma mãe que pede ajuda por ter um filho abaixo do peso). Pasmem, ainda reforçam o sofrimento do outro! (Troféu mãe do ano aos montes) Respostas carregadas de soberba, embebidas em onipotência. Onde está a empatia materna? A sensibilidade humana? Quando pisotear foi mais importante do que estender a mão? Quando julgar o comportamento do outro foi mais importante do que oferecer informação? Recordemos Laura Gutman, quando menciona a experiência materna e um território (simbólico) onde circula uma afinidade essencial comum a toda mãe. (e oremos!). 

Isso tem me feito pensar muito, não quero ser como essas mães. Quando defendo uma causa, não significa que eu minimizo ou desvalorizo a causa do outro. Não quero ser a que (supostamente) está sempre certa. Eu erro, e muito. O que me tranquiliza é que erro tentando acertar, que eu erro com a expectativa de saber identificar meus erros e que eles me tragam algum aprendizado, e mais, que eles possam ser os pilares que sustentam os meus acertos. Que em nossa jornada compartilhada saibamos filtrar o que é útil e de fato possa nos ajudar.

Tempo de reflexões, virá amadurecimento? Espero que sim. 


8 comentários:

  1. Me identifico com sua opinião Marcela. Também tenho visto muito isso nos grupos que participo (que são os mesmos que os seus, tendo em vista que vc me convidou para ingressar... rsss).
    Sou muito mais apoiar e dar suporte, pois um dia vou precisar deles tbm. Não só por isso, mas tbm, pq isso estimula a mamãe que está com dúvidas, a pesquisar mais e se interessar pela saúde do seu pequeno, alimentação, ou mesmo ao parto que vai ter.
    Parabéns, mais uma vez pelo texto.
    Bjão

    ResponderExcluir
  2. Isso mesmo Ma! Sou meio "avessa" aos grupos das redes sociais por isso. Sei q não deveria...pq quem os cria tem a maior boa vontade de nos socorrer nesse "universo de questionamentos" q é parir e criar um filho. Amei seu post e concordo com cada linha! Bj Fabi

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Fabi! Que bom ter uma visita sua...o negócio é filtrarmos as informações e fazermos cara de alface, muitaaaaa cara de alface! hehehehe
      beijossssss

      Excluir
  3. Apoiada Ma, tendo todo o meu carinho!
    Bjos
    Simoni

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Simone! Que bom ter você por aqui, fique à vontade para palpitar sempre! bjoooo

      Excluir
  4. Beeeemmmm isso mesmo.
    No comecinho, você dissetudo, a palavra chave é INFORMAÇÂO.
    Vejo também muita gente opinando baseada apenas em sua opinião, sem levar em conta o que dizes os pediatras, os psicólogos, os pedagogos e os especialistas.
    O meu desejo é como o seu também, opinar sem ofender, argumentar a favor do que penso e não contra o que o outro pensa.
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "...Argumentar a favor do que penso e não contra o que o outro pensa".
      A-D-O-R-E-I!
      bjoo :)

      Excluir